As flores

•Maio 5, 2010 • 3 Comentários

Era Inverno e não seriam mais do que seis horas, mas estava um nevoeiro cerrado, daqueles como há muito não se viam. Sim, que este ano o calor foi intenso e o Inverno mais parecia Outono e a Primavera mais parecia Verão.

Ia meio à pressa. Cansada e aluada também. Subitamente, na janela do primeiro andar de uma casa na Rua do Mercado, uma estranha jarra de bronze com dois malmequeres brancos.

Nessa noite, aqueles malmequeres rondaram o meu sono e rodopiaram intensamente no meu sentido. Não parava de pensar no que levaria o dono, ou a dona, a deixá-los num parapeito tão sujo e gasto. Que mãos é que os teriam deixado solitários ao abandono de uma noite de Inverno?

Vim a saber por vizinhas dessa mesma janela que, por mais de quatro décadas, aquela casa tinha sido habitada por um casal demasiado apaixonado. Diz quem os conheceu que viviam inebriados um pelo outro e que se faziam promessas diárias de amor eterno. Davam grandes festas e a casa vivia cheia de amigos e de luz. Dizem também que, quando o mestre Chico morreu, o rosto da velha Alice morreu com ele. Aos poucos, fechou-se sobre si. Criou um mundo de isolamento e não autoriza que o invadam. A casa começou a degradar-se e está a ruir como ela que lá habita.

Agora, a única luz que vê é a que chega ao sofá de napa vermelho, pelas fendas da janela do primeiro andar. Ali permanece sentada e amorfa a olhar os porta-retratos de outrora. As rugas calam-lhe os prantos e a voz, quase muda, perde-se em silêncio. Das flores pouco se comenta, apenas se sabe que são o que a têm mantido viva até hoje.

A 17 de Janeiro de 1998, as flores não aguentaram o Inverno. Foi o melhor que podia ter acontecido à Alice, dizem as vizinhas.

O teu nome, Clara

•Março 29, 2010 • Deixe um Comentário

Serenamente, pedi à Clara que fosse comigo até à praia. Era ali que lhe contaria um dos capítulos mais importantes da sua vida. Clara estava com cinco anos e não podia deixar passar mais tempo. Setembro aproximava-se e com ele a entrada no colégio. O contacto com outras crianças e com outros adultos. Com novas experiências e com outras conversas.

Assustava-me só de pensar que pudesse saber por outros e não por mim. Sentia-me mentirosa. Por outro lado, ainda não tinha idade suficiente para ficar a saber o seu passado, para perceber e aceitar-me com as minhas fragilidades e fraquezas.

Percorrendo o imenso areal da praia da falésia, fui-lhe contado que eu e o pai não podíamos ter filhos – Deus quis que assim fosse – e que tínhamos muito esse desejo. Contei que sonhávamos com todas as cegonhas das histórias e com todos os dias azuis, mas que elas nunca mais chegavam e os dias eram cada vez mais cinzentos e capazes de trazer a chuva. Falei dos testes, dos exames e das culpas. Estava com uma criança de cinco anos à minha frente e parecia ter apenas o livro do passado a desfolhar-se ao vento. Era essa a imagem que tinha na cabeça. E agora, a das últimas páginas que contavam como numa manhã azul (por obra do mesmo Deus, ou não) resolvemos adoptar uma menina. Lembro-me como se fosse hoje… saímos de carro bem cedo e fomos ao Lar de Santa Clara onde recém-nascidas eram deixadas por jovens adolescentes. No momento em que lhe contei como eu e o pai nos rendemos a uma doce bebé de finos cabelos loiros, ela agarrou na minha mão pois percebeu que toda aquela conversa não se fazia de simples curiosidades e coincidências. Duvido que me consiga esquecer, em tempo algum, da forma como vi um olhar infantilmente perturbador de entendimento maduro, tal como não esquecerei a quietude de uma menina de cinco anos ao ouvir tamanhas revelações sobre a sua existência, nem como me disse que estava a fazer-se frio e que estava na hora de irmos para casa.

- Queira o mesmo Deus, agora, passados todos estes anos, que a Clara nunca sinta vontade de ir ao lar com o seu nome…

Monte das Acácias

•Março 1, 2010 • 5 Comentários

Corria uma leve aragem no Monte das Acácias. A noite embalava um sabor morno a chocolate quente e torradas. O avô Armando acendia o charuto e, temperado pela idade, sentava-se no cadeirão do alpendre da casa grande.

Já devia ser perto das onze da noite e parecia haver uma longa noite pela frente. O avô gostava de meditar sob o horizonte fosco. Era o seu maior vício e merecia-o. Recordava o baile em que conheceu a avó, a festa do casamento, os bailes da aldeia, o nascimento do seu único filho, dos netos, …

O cheiro a queimado acordava-o sempre do sono de recordações e impunha-lhe a dura realidade. Sem rabugice levantava-se. Ia à cozinha, cortava de novo o pão, punha-o na torradeira e voltava para o seu aposento. Muito gostava o avô deste monótono ritual.

Hoje era o dia de anos da avó Maria e nem um bolo para pôr umas velas, ou alguém para cantar os parabéns. Há muito que o filho não vinha ao monte. Depois do diagnóstico da doença da avó, o meu pai recusou-se a enfrentar essa crua verdade e evitou sempre levar-nos até às Acácias.

Após o nascimento do Francisco, o meu irmão mais novo, a avó começou a ter pequenos esquecimentos e depressa passou a não dizer coisa com coisa. A memória da avó Maria começou irreversivelmente a roubar-lhe a vida. De mulher. De esposa. De mãe. De gente.

Já não conhecia o meu pai quando ele decidiu ir para o Porto. Era a distância suficiente para não presenciar a doença dela e negar uma vida cada vez mais lacunar. Era o refúgio perfeito para anestesiar a sua dor, embalada num Douro forte e numa velha zona ribeirinha com sabor a aconchego de casa. Entre nós, nunca proferiu o nome da doença da avó. Alzheimer era o nome proibido que a minha mãe deixou escapar numa conversa com a tia Lurdes e que os meus ouvidos de aparente distracção captaram.

Os telefonemas do meu pai começaram a pautar-se por saber do tempo, e pontuavam-se no tempo. Falar das plantações do avô Armando ou das novidades do monte ajudava a camuflar a existência da “tal doença” da avó. Ela raramente vinha ao telefone. Não conseguia. O avô preferia ter o telefone no cimo do armário da sala de jantar, a ouvir dizer disparates e entristecer ainda mais o seu coração. Ele era mais forte do que julgava. Tinha um ar frágil mas aguentava pacientemente cada distanciamento, compreendia sabiamente cada alteração e esperançava-se ao mais ténue sinal da avó. Pena que o seu filho não tinha a capacidade de amar como ele…

Inebriado pelo cheirinho das torradas que se escapava pela vidraça escancarada da janela da cozinha e extasiado pela leveza dos seus pensamentos, foi acordar a avó. Obrigou-a a sentar-se junto dele e a comer esta ceia tardia. Ela, de camisa de dormir de algodão fofo e azul floreado, absorta à data e à hora, encostou-se ao seu ombro e fez o que ele pediu.

Rompendo este quadro de tórrido alheamento, chegou ao monte uma carrinha Peugeot de luzes acesas e rodagem ligeira. O avô levantou-se, desceu a escadaria do alpendre e correu por um pátio térreo até ao castanheiro onde a carrinha tinha estacionado. A avó ficou como estava: alheada à inesperada visita, inerte à magia da noite e a comer torradas embebidas em chocolate quente.

As portas da Peugeot abriram-se e deixaram antever o que há muito parecia impossível de acontecer. O filho, a nora e os netos estavam nas Acácias. Era quase meia-noite e este era o melhor presente que a avó Maria podia ter recebido. E o meu avô também. Era o meu também. E o do meu pai.

Nunca o Monte das Acácias tinha presenciado um abraço tão forte e tão profundamente sentido como aquele entre o meu pai e o avô. Nunca o choro do meu pai tinha rebentado e tão bem que lhe estava a fazer. Nunca o cheiro a pão torrado e a chocolate quente foi tão intenso e desejado.

Esta foi a noite escolhida para a mudança, mas será que a minha avó sentiu tudo isto? Será que ela saboreou em si cada aragem trazida pelo vento quente de uma noite de Verão? Eu gostava que sim. Pelo meu pai.

Falo-te daqui

•Fevereiro 21, 2010 • 1 Comentário

principezinho

Imagina um planeta bem alto e redondo. Agora imagina outro semelhante, mas mais elevado.
O vento sopra forte e eu falo-te daqui (do mais baixo, claro!). Falo-te sem pressas nem rodeios. E tu ouves-me. Ouves-me falar em admiração e carinho. Ouves-me falar em sonhos e projectos. Aceitas cada devaneio meu e sorris. São raros os que habitam o meu mundo e eu estou feliz por te ver por aqui.
Obrigada, Edgar.

Morreste-me

•Janeiro 2, 2010 • 6 Comentários

Está frio. Corre um Dezembro longo, duro, tempestuoso. Altura certa para um ponto final numa história sem sentido. Com um início bonito talvez, mas ainda assim mal escrita. Tão mal redigida que chega a ser considerada estranha para muitos e impiedosa para mim.

Num acto irracional e animalesco, desarrumei a casa de uma ponta à outra. Vasculhei todas as divisões e, das gavetas, tirei o que te fazia presente e te mantinha naufrago de mim.

Abri o roupeiro, tirei o casaco de bombazina e o cachecol de lã. Ainda fui à primeira gaveta da cómoda e tirei as luvas de pele. Peguei no álbum de fotografias e numas quantas recordações que já tinha posto numa caixa de papelão no fundo da despensa. A casa ficou virada do avesso e a porta fechou-se, imposta por uma rajada seca de corrente de ar.

Cheguei à boca onde o mar rebenta infernalmente. O céu e o mar eram um só, culpa de um nevoeiro que apagava a linha do horizonte. Desci pelas rochas, chamada pela força do rebentamento das ondas. Atrás de mim, no paredão, tinham ficado dois ou três pescadores que me avisaram do perigo do mar em dias como o de hoje.

Dona de mim, nem uma palavra lhes dirigi e continuei até largar as luvas e estender a mão para tocar a mais fria das águas. Fiquei assim o tempo suficiente para apaziguar a raiva que trazia edificada num álbum e numa caixa de papelão.

O cachecol enrolava-se cada vez mais ao meu pescoço e os cabelos entrelaçavam-se com a força do vento. Não houve choro, nem luto. Porque esse fez-se por si só nos momentos de exigências e de aniquilação. Sufocada tantas vezes por ti, deixei que a vivacidade da minha jovialidade fosse adormecendo. Não era eu tantas e tantas vezes. Os momentos em que nos olhávamos eram invariavelmente cordiais e metódicos. Um formalismo começou a reger a nossa irreverente cumplicidade e eu fui deixando de me importar com isso. Aliás, comecei a fazer questão que fosses mais um conhecido que se cruzou um dia comigo na rua e a quem educadamente digo «bom dia». Sei que o nosso inconsciente se encarrega de toldar mecanismos de defesa anti-sofrimento em situações estremas. Este é o meu.

Depois de retirar a mão meio arroxeada da água e de mal a conseguir sentir, peguei no álbum e na caixa e deixei-os ir sem rumo, levados brutalmente pela maré. Não tirei o olhar um só minuto deles, até desaparecerem por completo. As fotografias andaram alguns momentos à tona mas depressa foram absorvidas e puxadas para o fundo.

Estive perto de três horas, depois dessa despedida, sentada no rochedo. Com as botas trespassadas de água, ergui-me e calcei as luvas. Apanhei o cabelo com um elástico que estava esquecido no fundo do bolso do casaco, levantei as golas e aninhei o cachecol à volta do meu pescoço.

Regressei a casa já com as luzes da cidade. Depois de um banho quente, preparei um café forte e enrosquei-me devagar na manta do sofá.

Quando acordei uma branda neblina subia o cume da montanha. Os pássaros voavam em bando e pintavam uma manhã serena e soalheira.

E este é o sinal perfeito de que morreste em mim.

Tinha de ser

•Setembro 26, 2009 • 3 Comentários

sapatos

Há mais de cinco anos que adio a ida à aldeia para uma limpeza profunda da casa e dos restos da tua vida. Foi das decisões mais difíceis que tomei até hoje, mas tinha de ser hoje! Não conseguia habitar em mim com o peso do medo e, estranhamente, não podia carregar mais tempo com a culpa de te ter deixado.

Prometi a mim mesma que, a partir do momento em que o fizesse, os fantasmas de ti me deixariam para sempre e a minha liberdade estava entregue a esse passo.

Na véspera da minha decisão mal preguei olho. A noite foi longa e o relógio tictacteando um “vou não vou” quase acobardou os meus pensamentos e a minha determinação de acabar de uma vez por todas com tudo.

De frente para a tua casa, agora impregnada de salitre e humidade, ressurgiu a Marianinha, de franja esguia nos olhos e meias até aos joelhos. Ali estava eu numa outra época, com bastante menos idade, mas com a mesma fragilidade e os olhos rasados de água. Não consegui evitar que o meu coração trespassasse a caixa torácica e devorasse a minha alma e os meus sentidos. Vi-me com três ou quatro anos no café da aldeia à tua procura. Lá estavas tu, com os teus amigos do jogo a cair de bêbedo e a reclamar o dinheiro de uma aposta perdida. Tudo era feito de apostas. Apostavas o dinheiro e, aos poucos, perdeste tudo… A mãe primeiro que, num rasgo de egoísmo, nos deixou aos dois. Depois o dinheiro, o carro, eu… e, como se isso não bastasse, a dignidade por ti, quando te suicidaste.

Ainda de nó na garganta e soluços no peito, entrei e percorri todos os pormenores de uma casa vazia que, a qualquer momento, te podia fazer ressurgir não sei de onde, nem de que canto. Bruscamente, fui sobressaltada por uma memória que trazia a tua voz grave na hora do jantar. Nunca gostavas de nada. Excesso de sal e pouca cozedura. Desculpas perfeitas para uma birrice embriagada de São Domingos e jarros de vinho.

Nada à tua volta te assustava e te trazia para casa. Nem as tempestades de Inverno, nem as trovoadas espanholas que alaranjavam o céu nos dias quentes, te gritavam o meu nome pelos céus. Ficava sozinha debaixo dos cobertores no fundo da cama, onde só os meus olhos esbugalhados me encorajavam numa escuridão artificial de lençóis e mantas de algodão. E assim fui crescendo, a contar apenas comigo e a cuidar incondicionalmente de ti.

Preciso de varrer a cozinha, lavar o chão e passar um pano nos móveis para conseguir limpar as lágrimas, a mágoa e a dor. Quero libertar-me da minha infância alcoolizada por ti e inventá-la de novo nuns olhos serenos. Quero ver-me de laçarote e cabelo para o lado.

Por entre mais algumas caixas e mais arrumações, esbarrei nos teus sapatos pretos e velhos mas comodamente arrumados debaixo do roupeiro. Lá estava ela outra vez. A Marianinha a reaparecer secretamente de mãos nos ouvidos e a morder os lábios com toda a força.

- Basta. – chorei eu e ela em uníssono. Não vou ouvir mais os passos dele ao pisarem o chão. Não quero mais ecos agrestes da sua voz latentes na minha memória.

E, com a mesma brutidade que sempre lhe conheci, peguei nos sapatos e atirei-os para o lixo. Literalmente, para o lixo. As amarras estavam a soltar-se e eu com o rosto carregado de lágrimas soluçava… tinha de ser.

Um pedido de desculpas ao meu pai por o ter abandonado e a mim um pedido de desculpas por não me ter conseguido libertar mais cedo.

Cai o dia

•Julho 24, 2009 • 1 Comentário


Cai o dia aqui e agora
Em mim e por fora
Com tanta pressa
Que arremessa
A minha vida inteira.
Profícua cegueira
Nuns olhos cansados,
Inertes, molhados.
Na agreste maresia
Encubro a nostalgia
Dos corajosos passos
Que conheceram abraços.
Escamoteio lembranças
De ténues esperanças,
Espelhadas no chão.
Com débeis mãos
Seguro as memórias
Das minhas histórias,
Numa vergada bengala
Que consola, embala
Os meus olhos fechados
Em dias nublados.


Cai o dia aqui e agora
Em mim e por fora!

velhote

Poema classificado em 3.º lugar no XXIX Concurso Internacional Literário

 
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