Corria uma leve aragem no Monte das Acácias. A noite embalava um sabor morno a chocolate quente e torradas. O avô Armando acendia o charuto e, temperado pela idade, sentava-se no cadeirão do alpendre da casa grande.
Já devia ser perto das onze da noite e parecia haver uma longa noite pela frente. O avô gostava de meditar sob o horizonte fosco. Era o seu maior vício e merecia-o. Recordava o baile em que conheceu a avó, a festa do casamento, os bailes da aldeia, o nascimento do seu único filho, dos netos, …
O cheiro a queimado acordava-o sempre do sono de recordações e impunha-lhe a dura realidade. Sem rabugice levantava-se. Ia à cozinha, cortava de novo o pão, punha-o na torradeira e voltava para o seu aposento. Muito gostava o avô deste monótono ritual.
Hoje era o dia de anos da avó Maria e nem um bolo para pôr umas velas, ou alguém para cantar os parabéns. Há muito que o filho não vinha ao monte. Depois do diagnóstico da doença da avó, o meu pai recusou-se a enfrentar essa crua verdade e evitou sempre levar-nos até às Acácias.
Após o nascimento do Francisco, o meu irmão mais novo, a avó começou a ter pequenos esquecimentos e depressa passou a não dizer coisa com coisa. A memória da avó Maria começou irreversivelmente a roubar-lhe a vida. De mulher. De esposa. De mãe. De gente.
Já não conhecia o meu pai quando ele decidiu ir para o Porto. Era a distância suficiente para não presenciar a doença dela e negar uma vida cada vez mais lacunar. Era o refúgio perfeito para anestesiar a sua dor, embalada num Douro forte e numa velha zona ribeirinha com sabor a aconchego de casa. Entre nós, nunca proferiu o nome da doença da avó. Alzheimer era o nome proibido que a minha mãe deixou escapar numa conversa com a tia Lurdes e que os meus ouvidos de aparente distracção captaram.
Os telefonemas do meu pai começaram a pautar-se por saber do tempo, e pontuavam-se no tempo. Falar das plantações do avô Armando ou das novidades do monte ajudava a camuflar a existência da “tal doença” da avó. Ela raramente vinha ao telefone. Não conseguia. O avô preferia ter o telefone no cimo do armário da sala de jantar, a ouvir dizer disparates e entristecer ainda mais o seu coração. Ele era mais forte do que julgava. Tinha um ar frágil mas aguentava pacientemente cada distanciamento, compreendia sabiamente cada alteração e esperançava-se ao mais ténue sinal da avó. Pena que o seu filho não tinha a capacidade de amar como ele…
Inebriado pelo cheirinho das torradas que se escapava pela vidraça escancarada da janela da cozinha e extasiado pela leveza dos seus pensamentos, foi acordar a avó. Obrigou-a a sentar-se junto dele e a comer esta ceia tardia. Ela, de camisa de dormir de algodão fofo e azul floreado, absorta à data e à hora, encostou-se ao seu ombro e fez o que ele pediu.
Rompendo este quadro de tórrido alheamento, chegou ao monte uma carrinha Peugeot de luzes acesas e rodagem ligeira. O avô levantou-se, desceu a escadaria do alpendre e correu por um pátio térreo até ao castanheiro onde a carrinha tinha estacionado. A avó ficou como estava: alheada à inesperada visita, inerte à magia da noite e a comer torradas embebidas em chocolate quente.
As portas da Peugeot abriram-se e deixaram antever o que há muito parecia impossível de acontecer. O filho, a nora e os netos estavam nas Acácias. Era quase meia-noite e este era o melhor presente que a avó Maria podia ter recebido. E o meu avô também. Era o meu também. E o do meu pai.
Nunca o Monte das Acácias tinha presenciado um abraço tão forte e tão profundamente sentido como aquele entre o meu pai e o avô. Nunca o choro do meu pai tinha rebentado e tão bem que lhe estava a fazer. Nunca o cheiro a pão torrado e a chocolate quente foi tão intenso e desejado.
Esta foi a noite escolhida para a mudança, mas será que a minha avó sentiu tudo isto? Será que ela saboreou em si cada aragem trazida pelo vento quente de uma noite de Verão? Eu gostava que sim. Pelo meu pai.
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